Cadernos - Londres e São Félix, 2025

fotografia do mar


sem título
28/05/25 e 26/11/25

desaparecer dentro de ti.
foi na tropa, em sentido, que aprendeste a desaparecer até de ti mesmo,
como que te fundindo com o ar.

deixas só o corpo presente e a voz que responde com uma parecença de assertividade, ou humor, ou empatia.
mas não estás lá.
não estás em lado nenhum.

não te evades em fantasias acordadas.
sais. e deixas o mundo passar como o rio que corre ou as ondas que quebram e o mar que é só o mar.

fotografia do por-do-sol visto pela janela



sem título
16/10/24 e 23/11/25

tudo o que queria dos dias era estar à janela
e à manhã limpa ver a cor do ar mudar em gradações de silêncio e acender-se de frio a calor, cinza a lilás e laranja e todas as cores.

até o respirar calmo e o pulsar leve no corpo todo serem o ritmo de um conhecimento mudo de me saber mais velho,
velho como o mundo e feito do mesmo que o mundo
e sentir na ponta dos dedos e no peito e no corpo todo que este frenezim é puro e corta e é inseparável do fundo do sangue
e do correr do ar e do resto que sou.

mas és uma destas criatura que raspam na garganta sons ternos feitos de fome de ser e do outro para ser,
num novelo de som em conversas difíceis de decifrar,
com enredos que morrem a meio
e esquecem no fim das frases porque as começaram.

criatura de dor herdada que os dias fazem tremer,
e contam a sua história só nas coisas que lhe acontecem e delírios de triângulos narrativos,
e à noite no escuro, na cama continuam atrasadas para chegar,
e sonham que têm exames e testes para os quais não estudaram.
a dever em dúvida,
a sentir uma pulsão doente de ser sem saber bem o quê,
a remoer nos erros vitais e profundos de qualquer coisa que até sabem absurda.

criaturas que com sorte e privilégio filtram o remoínho das horas até gota a gota nos pingar no sangue uma sabedoria tangível e às vezes até fazermos algo contra a nossa vontade,
algo que fará alguém bastante mais tarde. anos. séculos depois. mais feliz. e isso ter de bastar.

errando mas seguindo com esta esperança, que é só animal talvez,
e o bater animal do coração e o calor de outras mãos nos nossos ombros como quem nos levanta o peso imenso de estar só
em dias e momentos apenas que passam sem nome e sem serem separados de outros momentos
mas que vivemos completos.


sem título
20/01/25 e 23/11/25

não há,
entre estes movimentos pendulares
e entreolhares rápidos ao cruzar-nos
um segredo assim fundo que não seja só uma fome antiga de ser ao mesmo tempo feito de tudo que é feito o mundo
e uma dor elétrica e extática funda de se ver aqui
sem mais que falar do que ruídos arrastados da garganta
e um labirinto frenético de história febril,
uma rede pegajosa de jogo do apanha.

este sangue quente que corre e o coração que bate
e o dever de pôr naquilo que queres o tempo e a energia que te escorrem por entre os dedos,
esta sorte de por entre todo o ar,
todo o nada por onde cais,
todo o ruído e distâncias,
poderes pousar as mãos naqueles ombros nus e o calor da tua pele e o calor da pele dela
assim pulsarem silenciosos, fundo,
como algo vivo que se funde.

não há segredos valiosos.
não há nada a descobrir,
conspirações ou desfalques ou jogos,
não te deixes levar nesse tédio,
tens sangue quente que pulsa,
o fremir de vozes e a dor elétrica de viver hoje.

põe naquilo que queres o tempo que tens
e desfaz as mãos até o segurares.

na tua voz de pássaro refletido na água deste atlântico que se estende dos teus pés até ser outro mas ser o mesmo,
chama esses infernos gregos que eram geográficos e não puniam senão com a perda do nome e da memória.
chama e faz o sacrifício de sangue negro e puro e faz uma ponte assim entre mundos.
chama-te a ti mesmo como quem acorda e vem. e chega a ti como quem chega a casa.


sem título
26/10/24 e 26/11/25

há na tua voz um calor suave e animal que somos e aprendeu a tocar nos outros assim.
é um rio o marulhar cerâmico que prende por instantes um pedido, sempre um pedido,
que pulsa ao ritmo lento ou rápido do sangue e do bater do coração e o fluir do ar pelos pulmões.
que apressa o ritmo ou abranda ou se acende em fúria e puxa ou empurra,
mas sempre um pedido.

esse apelo na brancura da tua pele,
nos dedos compridos com que tocas nas coisas ao falar,
nos olhos acesos,
nos lábios acesos,
um pedido.

ao desejo. ao dever. à trivialidade de uma relação funcional. de dar e receber favores. informação. ou outra das quaisquer coisas com que enchemos os dias.

e que criatura sou que tudo, todo esse sangue e vontade. medo ou desejo,
no silêncio que prendes e mexes nos dedos,
ou no calor da voz,
acaba sempre por ser um dever que é só uma maneira de ser útil transformando tudo num problema que depois resolvo,
e se avança
sempre nesta dança de necessidade e como quem mantém à distância esse caos perigoso
de quem sabe mexer assim no calor do sangue dos outros,
sabendo ou não que entre a palavra água e a água só há diferença para quem tem sede ou se pode afogar.
e para quem não quer nadar num rio que não é seu
cada palavra é um soco no peito.

Canary Wharf à noite



tempo houve
06/03/25, 11/03/25 e 23/03/25

tempo houve em que se falava cara a cara só
e que o limite da atenção era o do tempo dado ali
e parece-me justo que o que digo arrefeça e se esfume quando vou,
e este aperto de mão. este trabalho das mãos se esvaia quando paro e vou.

o que sou vive quente e esvai-se
como sangue no chão e estou só algum tempo aqui quente como uma pedra ao sol.
e querer só ser e até não ser e encontrar nesta forma assim de escrever ao escrever como encontrei a ler os outros estas palavras como pedras quentes ao sol,
onde pões a mão e sentes o fluxo transitório de passagem muda de testemunho.

mas mesmo nestes punhos cerrados e conversas desencontradas,
entre cruzamento pendulares, cigarros acesos uns nos outros de estranhos em passagem,
o agradecimento balbuciado e um gesto da cabeça,
partilha e gesto e voz que recuam até ao princípio do fogo e da língua.
e ver de passagem num espanto sonolento diante de um outro que se aproxima com o cigarro ao cigarro
alguém que não é um deus qualquer,
ou um espelho, que é a mesma coisa, no fundo,
ver esta partilhada, viva inquietação de pedra quente ao sol.

nos cacos aguçados dos dias,
mesmo nestas horas febris lembradas vagamente como sonhos em línguas quase estrangeiras,
mesmo aí,
sei que sou velho como tudo no mundo.
o peso do dever,
da memória e dos outros. o peso de mim a mim.
cacofonia que tapa um vazio,
mas sou velho como tudo no mundo. tudo tem a mesma idade. é tudo feito da mesma coisa.
e o mesmo não morre nem vive. tudo nesta rede que pômos sobre tudo é o mesmo.
e não devemos senão uns aos outros.


esta aparente imobilidade de ver aqui o mar
22/03/25 e 23/03/25

esta aparente imobilidade de ver aqui o mar
ou de ver da janela de casa o declive do monte até ao rio.
sob este aparente silêncio imóvel range e freme, corre uma coisa da qual não sei o nome.

e em dias como estes,
dias de vidro partido e uma fúria metropolitana de causas e efeitos separados.
em dias como estes tenho só de vir aqui.
aqui. e alinhar a respiração com o correr e a fome que lhe subjaz,
porque aí e no barulho do rio
ou de um vento qualquer que passa e assobia em tudo
ouço chamar-me de volta a tangível pertença que as pedras e os animais têm na família das coisas do mundo.


dança.
27/03/25 e 22/11/25

dança.
no vermelho dos lábios e no suor dos braços e no brilho do cabelo que apanha a luz ao mexer-se
e o teu corpo mexe-se como quem procura um caminho, uma voz, estar aqui.
e tudo o que se mexe é e a percussão é o bater do coração do mundo no corpo.

mexe-se e procura só estar, mas também um caminho e ser no caminho e ser o caminho,
um alívio de dizer como quem respira,
fazer parte da música, ser a música elétrica
e chegar às vezes como a um orgasmo,
porque todo o desejo é só desejo de ser.

e dança porque o corpo é a língua materna.
e no ritmo os corpos encontram-se e são onde antes em repouso eram objetos e adereços de uma coisa que não começara realmente.
e na dança puxam-se a si. e são.

A praia da Aguda ao fim do dia



sal
22/07/25 e 22/11/25

há uma coisa que se encontra na água salgada,
um nó que se desfaz.
uma coisa como chegar a casa,
como descobrir que se tinha sustido a respiração ao finalmente respirar.

como naquele verão em 2021 depois de meses fechado em casa na pandemia, apanhar o avião, apanhar o táxi no aeroporto, a estrada e o barulho do motor,
chegar a casa e abrir o portão e parar e saber como de mim a mim só ali e então ao rodar a chave e como uma luz que se acende que temera nunca mais poder voltar.

e na manhã seguinte no mar
poder finalmente respirar.

Graffiti de um busto clássico


nós e Cato, o Jovem
22/07/25 e 22/11/25

é-te pedido que faças duas coisas impossíveis razoavelmente de conciliar.

primeira:
num correr de horas semi-febris,
fazer com que coisas desalinhadas, dissonantes, pouco mais do que cobertas por um verniz mas ainda assim absurdas e vivas e com dentes,
parecer um correr de horas que faça sentido a um grupo de pessoas a quem se dada a tarefa de imaginar uma maçã varia cada uma delas na cor e na forma e no sabor que lhe imaginam e alguns até imaginam uma pera.

segunda:
de segurar um enxame elétrico nas mãos
e vestir uma voz e um nome de batismo
e falar uma língua estrangeira na periferia das coisas.

(e saber que o segredo do mundo está fechado numa árvore, na seiva que corre
e essa pertença nunca será sangue no teu peito,
será sempre uma fome que não tem nome,
segredo do qual não estás particularmente perto sequer, perto como outros, e que nunca será teu.

E, sendo imigrante e criatura de fronteiras, entre línguas, e chegando a tudo oblíqua ou circunloquialmente,
nunca estarás em casa.)

é te pedido que o faças porque és um nó numa rede invisível de passagens de testemunho sem a qual morrias.
sem a qual estarias nu, sem língua,
vazio sem nome ou o calor destas outras mãos e da fricção,
o sangue gelando ao frio indiferente e mudo de tudo o que não somos nós.

há agora um tom contínuo que corre no brilho elétrico de tudo. escuta-o. diz que tudo é perigo. e labirinto com um monstro no centro.
e que só nesta pornografia solipsista de um estoicismo de pacotilha há equilíbrio e significado.

não há labirinto, não há inverso nem reverso. não há monstro nem anti-monstro.

escreve o teu nome no branco da página ou outra palavra qualquer. é só no momento em que os olhos e o fôlego de uma voz lhe tocam que se acende o significado,
numa constelação elétrica memorizada e numa partilha febril de corrente que se estende para trás.

e duas coisas não são grande pedido se olhares pela janela e nomeares todas as coisas que quem trabalha te deu mesmo sendo sangrado pelos filhos da puta que agora te dizem que o segredo da existência é a pornografia de um estoicismo de pacotilha. que se fodam e vão ver quem era Cato, o Jovem, e o que acaba por acontecer aos tiranos.

Crossharbour



não lugares
25/07/25 e 22/11/25

corredores de hotel de aeroporto e a luz laranja dos quartos vazios.
parques de estacionamento subterrâneos.
sempre te atraíram estes lugares de passagem,
a sua eficiência fria e vazia. a sua quase muda hermenêutica arquitetónica de comércio e o pouco que exigem de ti.

estações de comboio. salas de cinema à tarde,
sítios onde se pode fechar os olhos e quase dormir o sono que à noite não vem,
a frieza do cimento, o espaço liminar entre o interior e o exterior, estar sozinho e acompanhado pela gente que passa para outro lugar,
e os ângulos brutalistas a abrir espaço para um silêncio que te deixa vir a ti mesmo assim como um animal de estimação que esperou que todos saíssem da sala para sair de baixo da mesa

e corres. nadas. a beleza do movimento e da respiração que liberta e torna tangível a curva quase sempre abstrata das histórias:
o início,
o meio,
o fim.
a viagem.
o esforço e a recompensa.

cuidar assim desse outro. de ti,
e nestes gestos mundanos e diários a sós ser por momentos como a mais velha história que contamos uns aos outros:

nos detetives sofredores de testa franzida que procuram o homicida.
no encontro com a alma gémea.
na demanda.
nos deuses que morrem na cruz.
o restaurar da ordem do mundo pelo sacrifício.


Torreira


em defesa do fogo
05/11/25 e 23/11/25

até a respiração e o bater do coração abrandarem e voltares ao corpo e a ti demora uns minutos.
até lá uma cacofonia de ângulos aguçados e estridentes entre desejos e vontades,
fúrias miúdas de trabalho e azedume circunloquial voltam num teatro repetido de sketch.

mas mesmo assim ao pôr as luvas e o capacete vou fazer a defesa do fogo.
a defesa do mundo,
a defesa da coragem como constância e do ser como um movimento que queima para ser.
desta tristeza como ferro quente que pulsa sob a pele desde sempre, de não ser quem querem em lado nenhum a onde vá e de não saber ser outra coisa.

a defesa de contra-corrente,
da crueldade cega de momentos em que firo o outro como o preço de estar com os outros,
de noites em branco,
da estupidez, de decisões a quente e da pena e luz de se saber quem é.
de correr à chuva,
de ir sozinho como uma criança perdida na imensidão vazia e áspera da estrada.
de te querer e de me quereres e disto que nos puxa um ao outro até à explosão que nos afasta e volta a puxar.

o dia azul e fresco e a estrada contorna a Lagoa de Aveiro para sul.
estar presente na mota em movimento seguindo o contorno da lagoa.
só céu e água e as garças que descolam em direção ao esfumado dos montes na outra margem e a percussão áspera do motor que é sempre uma pergunta.
a defesa do fogo, do mundo, do desejo e da dor que traz,
ardor dos músculos a correr quando andar bastava,
tensão nas palavras, o querer, o imaginar que é lembrar ao mesmo tempo,
da vida como motor de combustão. parte ar e parte combustível e fogo sobre pressão,
explosão e equilíbrio precário e movimento.

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